Um modelo de trabalho, uma mulher e um filme – Se meu apartamento falasse (1960)

A sociedade é uma coisa engraçada, implora por evolução o tempo inteiro, inventa as mais estapafúrdias e ao mesmo tempo úteis tecnologias e no entanto insiste em permanecer num loop infinito quando o assunto são determinados comportamentos. Não vou nem colocar aqui coisas mais polêmicas que envolvam discussões mais sérias, como preconceitos raciais e de gênero, mas de algo que pude observar vendo um filme de 1960 que mais parecia ter saído ano passado, tirando o fato de ser em preto e branco e ter um elenco atualmente morto.

Pra construir um cenário mais obvio vou descrever dois cenários. Primeiro: Trabalhador que permanece atrás de uma mesa, por mais de 8h no dia não necessariamente exercendo suas funções, buscando através de esquemas loucos e não convencionais subir de posição profissionalmente, para que também possa subir na escala social versus homens no poder que acham que quem está abaixo, deve permanecer abaixo a não ser em casos onde possa tirar algo de alguém. Neste ‘algo’ podemos incluir favores, dignidade e o que mais lhe vir a mente.
Segundo: Mulher bonita, inteligente com baixa auto-estima, sem amor próprio e que não consegue desapegar de um ideal amoroso inexistente resolvendo que por fim sua única solução é uma tentativa de suicídio para chamar a atenção do homem que ama, versus homem, machista, aproveitador e adultero.

Agora uma pergunta: Esses dois cenários parecem de alguma forma familiar pra você? Uma situação que já presenciou? E se eu disser que se trata das tramas principais de uma produção que tem mais de 50 anos? É, eu sei, impressiona pelo fato de que de um modo geral, o filme ainda reflete situações que são super atuais. Será que as coisas ainda vão mudar? Esse modelo arcaico de trabalho um dia vai virar piada? As mulheres um dia vão entender que devem se dar valor em primeiro lugar?

Kubelik- Baxter fiesta

Mas enfim Agatha, e o filme? Sobre ele eu digo uma coisa: Eu adorei! Tem um enredo interessante, avançado pra época e que prende do inicio ao fim. Um clássico de Billy Wilder, responsável nada mais nada menos que por filmes como Sabrina com Audrey Hepburn♥ (1954) e Quanto mais quente melhor (1959) com a eterna Marilyn Monroe. No filme temos uma visão bem amarga e dramática da solidão de duas pessoas e como esse sentimento moldou aos poucos suas vidas. Jack Lemmon, interpreta Baxter e Shirley Maclaine interpreta Fran e uma coisa é certa, pra ver o filme tem que torcer por esses dois com força! Eles tomam decisões de dar raiva, são covardes em certos momentos, mas mesmo assim ficamos esperando que ambos abram os olhos pra dura realidade e isso torna as coisas ainda mais emocionantes.

Baxter é solteiro e tem um apartamento alugado bem no centro de Manhattan e pra subir de status na empresa, ele empresta seu apartamento pra quatro colegas de trabalho terem suas relações extra conjugais, o que ele não esperava era se ver preso numa situação nada confortável com a garota que costumava admirar.
Apartment_1960

The Apartament ganhou em 1961 os Oscars de melhor filme, melhor roteiro original, melhor diretor e melhor montagem e direção de arte em P&B. Tudo no filme é muito cheio de detalhes, enquadramentos perfeitos e muita simetria. Ele merece ser lembrado por gerações e gerações, porque além do humor que aos poucos é desconstruído para dar lugar ao drama, ele faz drásticas criticas a sociedade. Recomendo.

Até a próxima.

 

Por aqui escreve sobre as coisas que ama e tudo que há ao seu redor. Não vive sem sonhos, chocolate, cachorros, cinema, séries, música, fotografia e Netflix. Email: agavalenca@gmail.com
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Amy

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